segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ler



Achei curiosa esta notícia do público, em que António Lobo Antunes afirma que "os livros em Portugal são indecentemente caros". Tem toda a razão! E é por isso que, quando tenho a oportunidade de ir a outros países, entro em tudo o que é livraria que nem um maluquinho. Pensando bem, não é preciso ir a outros países para entrar em livrarias que nem maluquinho, mas quem viaja comigo sofre um bocado com isso. De resto acho que até consigo ser boa companhia. Mas sou um bocado obssessivo em relação a livros e o pouco que ganho vai, invariavelmente, parar aos cofres da Fnac.

Enfim, ao menos não gasto em droga... Se é que se pode dizer que os livros não são como uma droga...

Achei também piada à declaração de António Lobo Antunes porque, ainda este ano, quando lhe fui pedir um autógrafo na Feira do Livro do Porto (cidade a que ele está muito agradecido, como volta a referir na notícia, por o ter apoiado na sua luta contra o cancro), o "sacana" olhou para o preço do seu próprio livro, que estava prestes a autografar, e disse o seguinte:

- Pagaste 22,5 euros (já não me lembro bem do preço) por isto?!

Ao que eu respondi:

- Vale o preço... - E acrescentei - Acho mesmo que vale, embora não caísse mal se fosse um bocadinho mais barato... Se mo quiser oferecer... - Não disse esta última parte... Ou pelo menos não deve ter sido esta a mensagem que ele entendeu dos grunhidos que soltei, típicos de quando estamos ao pé de alguém que admiramos... E não, não foram berrinhos histéricos... Isso foi mais quando fui ver os Tokyo Hotel... É mentira! Apanhei-vos!).

Acho que os livros são a melhor companhia não-humana que se pode ter. Adoro aquela sensação melancólica, de quando estou a acabar um livro. Ter, por um lado, pena de o estar a acabar e por outro lado aquela curiosidade de conhecer o final. Sinto também uma certa ansiedade em relação ao livro que se segue: "que livro vou começar a ler? (e a lista é tão grande) Será que vou gostar tanto dele como do anterior? (geralmente gosto sempre dos livros que leio... gostar tanto de ler permite-me 99% das vezes fazer as escolhas acertadas). Parafraseando Miguel Esteves Cardoso numa entrevista à RTP: "uma pessoa que gosta de ler nunca se vai sentir sozinha". E é verdade. Quando tudo corre mal, sei que aquele livro vai estar à minha espera. Aquelas personagens. Aqueles locais. Aquelas histórias. Tudo isto vai compensar qualquer coisa de mal que esteja a acontecer. Nem que seja por a personagem principal ser ainda mais desgraçada que nós, qual Candide. Ou por a mensagem ser tão inspiradora que nos dá um sentido para a vida, fazendo-nos desdramatizar todas as ninharias do dia-a-dia. Ou por o autor ser tão talentoso que nos sentimos privilegiados por estar ali, em primeira fila, a admirar a sua arte. Ou por nos identificarmos tanto com as personagens que os seus sucessos são os nossos sucessos.

Há tantas maneiras através das quais os livros nos fazem sentir bem que, enumerá-las todas, seria algo impossível.

Se me acontecesse alguma coisa que me impedisse de ler seria mesmo muito infeliz.

Sei que este post não tem piada nenhuma (não que os outros tenham, mas, para que saibam, esforço-me por isso), mas é um assunto que teria que referir até para justificar o estilo que adoptei aqui neste blog. Por gostar tanto de ler é que só escrevo disparates depretensiosos. Por gostar tanto de ler e por apreciar tanto o trabalho dos verdadeiros escritores jamais poderia ambicionar sequer chegar aos seus calcanhares. Não está ao alcance de todos. É por isso que só escrevo disparates. Aquilo que está ao alcance de todos é apreciar este trabalho infinito (já pensaram que vamos morrer sem ler tudo o que há para ler, sem visitar todos os locais que há para visitar, sem ver todos os filmes que há para ver, sem conhecer todas as pessoas que vale a pena conhecer?). E, se houver alguém que torça um bocado o nariz à leitura que se sinta minimamente inspirado ao ler este post fico mesmo muito contente. Aquilo que lhe posso dizer é que, se conseguir aprender a gostar de ler, vai ganhar um superpoder: não só vai conseguir voar, como vai conseguir teletransportar-se, como vai ganhar o dom da ubiquidade, como vai ganhar o poder da invisibilidade... Tudo aquilo que desejarmos, tudo aquilo que quisermos ser, os livros dão-nos. É preciso algum esforço, claro. Mas compensa.



Lado B do post. Quando estava tudo tão bonito, eis que surge o outro lado da moeda:

Segunda parte um tanto ou quanto alucinada


Bom triénio de 2009-2012! Prefiro desejar "bons triénios" visto que poupa-me o trabalho de desejar "bom ano" todos os anos. Algo que é extremamente cansativo e inútil! É óbvio que desejo um bom ano àquelas pessoas a quem desejaria um bom ano. Acho que ninguém é má pessoa ao ponto de desejar que alguém tenha um "mau ano" (e se houver ao menos que se aproveite o final do ano para isso. Não vamos ser hipócritas). Àquelas pessoas a quem não desejaria um bom ano, não vou desejar um bom ano de certeza. Primeiro, porque não frequentam os meus círculos (só fui uma vez à Assembleia da República) e segundo porque não sou hipócrita

Agora que penso nisso às vezes sou um bocadinho. Agora que penso um bocado nisso, esta mania de ter que desejar bom ano a tudo o que mexe por esta altura obriga-nos a sermos hipócritas... Não por desejarmos que essas pessoas tenham maus anos mas porque, às vezes, desejamos bom ano, mesmo estando-nos perfeitamente a marimbar para isso (bela palavra, "marimbar").

Já sabia que iam ter essa reacção. Não façam esse olhar moralista, como quem diz "Ah! Eu não sou hipócrita. Eu, quando desejo um bom ano a alguém estou mesmo a senti-lo". Dou-vos mais uma oportunidade, pensem um bocado: é mesmo verdade que estão genuinamente preocupados que as pessoas a quem desejam um bom ano tenham um bom ano? Eu sabia... Vocês não conseguem aguentar... Basta abanar-vos um bocadinho que descosem-se logo... Ao menos podiam ser mais firmes nas vossas convicções...

Algum dia conseguiriam enganar-me com essa atitude? Algum dia, algum de vocês, se deu ao trabalho de, passados, por exemplo, 6 meses, de terem desejado um bom ano a alguém, irem confirmar se essa pessoa está mesmo a ter um bom ano? Fazem-no com as pessoas que importam, até numa frequência de tempo menor., obviamente. E aí nada contra. Mas não vão, a meio do ano, por exemplo no dia 30 de Junho, preocupar-se em ligar ao indíviduo do telemarketing, que vos tentou vender o pacote Telefone+TV+Internet da Clix e a quem, por acaso, desejaram um bom ano para saber se, realmente, e tal como o tinham desejado, o ano do tipo está a correr bem... Ele até pode, e batam na madeira, ter morrido. E vocês vão estar despreocupados, na vossa vidinha, sem sequer saberem que o vosso desejo de bom ano caiu no saco roto da entidade responsável por garantir que os nossos desejos são atendidos. Essa entidade, que, ou por ser inexistente, ou por ter desígnios próprios e incompreensíveis, é por si só uma razão para acharmos que não vale a pena desejar o que quer que seja a alguém. É que vale apenas pela intenção. O poder, propriamente dito, é inexistente. A não ser que estejamos a esfregar uma lâmpada mágica.

E aí não vamos desejar um bom ano ao tipo do telemarketing. Vamos desejar, obviamente, 5,5 milhões de desejos (não se deixem enganar quando encontrarem uma lâmpada e não estourem logo os desejos em dinheiro, gajas e vida eterna. Desde que descobriram este furo, os Génios da Lâmpada nunca foram os mesmos... "Se ao menos tivéssemos escrito um contrato", pensam eles "Mas não... Basta esfregar... Como fomos tão crentes? Como conseguimos acreditar tão cegamente que toda a Humanidade era tão estúpida como o Aladino? Tantos anos fechados numa Lâmpada mágica deviam ter feito de nós Génios mais vividos, mais matreiros... Mas não... Somos uns Génios da Lâmpada tão ingénuos como um bando de girinos acabados de nascer... Se calhar mais um bocado...").

Mas nem por isso vamos deixar de desejar um bom ano a toda a gente. E também não é por isso que vão deixar de nos retribuir. São as convenções sociais... Como a convenção social de ter que dar prendas no Natal quando ficaria muito mais barato e poupava-nos muita confusão, se déssemos as prendas no Dia de Reis... Não podemos viver sem elas, nem sem as questionarmos. É que se não o fizéssemos estávamos a fugir à convenção social básica para um jovem que é a de questionar todas as convenções sociais. E agora dei um nó na cabeça: "se , para um jovem, é uma convenção social questionar todas as convenções sociais. Devo questioná-las ou não?". É o "quem nasce primeiro? O ovo ou a galinha?" das convenções sociais.

Pensem nisso e, quando tiverem uma resposta, mandem um toque que eu tenho um tarifário bem jeitoso, graças ao fantástico operador de telemarketing que mo arranjou, a segunda melhor pessoa do Mundo, logo a seguir ao CEO da Fnac (já agora, se estiver a ler isto, um chequezito Fnac de 1 milhão de euros até que vinha a calhar... Pense nisso... Eu nem me importava de gravar um anúncio a dizer que "a Fnac é que é e não sei quê"... Fica no ar a ideia...).

E é tudo!

Um sincero, bom triénio! Lá para o meio de 2011 eu faço um follow up do vosso triénio, ver se ele está à altura, deste meu grande desejo: que vocês tenham o triénio mais maravilhoso que é possível alguém ter!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

5 segundos de avanço...


Quando vi o título de capa da Visão desta semana assustei-me... "Será que descobriram um vídeo caseiro do Marcelo Caetano na intimidade", pensei eu. Como se não estivessem a acontecer coisas suficientemente más por esse Mundo fora ainda íamos ter que levar com um vídeo porno do substituto de Salazar vestido de empregada doméstica e a ser açoitado por uma matrona vestida de inspector da PIDE... Afinal não era... Nem tudo é tão mau quanto parece...

É incrível o efeito que uma ambulância provoca no trânsito em hora de ponta. É muito semelhante ao efeito que o Moisés provocou no Mar Vermelho (pelo menos como eu o imagino). É impressionante a maneira como estas criam espaço onde ele não existe...

Hoje em dia, o mais próximo que podemos estar de alguém que adivinha o futuro é estar a ver um jogo de futebol na televisão ao pé de alguém que está a ouvir o mesmo jogo no rádio. É das coisas mais execráveis que se podem fazer a alguém! E, mais importante do que isso, faz-me prezar cada vez mais o livre arbítrio em que firmemente acredito. Basta os tipos estarem 5 segundos adiantados em relação a nós para estragarem completamente a experiência de ver um jogo de futebol: em relação às coisas más retiram-nos toda a esperança, já sabemos por antecipação que o Luisão não vai conseguir tirar a bola em cima da linha de golo ou que o Quim não vai defender aquele penalty. A desilusão é ainda maior visto que estamos a assistir à inevitabilidade da desgraça, a um esforço inútil e inglório "podes sair daí, Quim, não vais defendê-la". As coisas boas perdem a piada toda visto que antes daquele lançamento lateral já sabemos que a jogada vai acabar o golo, retirando-nos a emoção (quase) orgásmica de um golo da nossa equipa. As pessoas que fazem isto são umas bestas e mereciam ser protagonistas de um filme porno com o Marcelo Caetano! Os cafés onde estas pessoas estão deviam ter um aviso de "spoiler alert".

Por outro lado, provam-nos que o livre arbitrio é essencial para a nossa felicidade.

Que piada tem a vida se já soubermos o que vai acontecer com 5 segundos de avanço?

Triste de quem não dá o livre arbítrio como garantido: fatalistas em relação ao futuro, refreados em relação às emoções.

(No café onde eu estava a ver o jogo, houve uma besta que estava a ouvir rádio que se lembrou de anunciar, numa jogada a meio campo, o golo do Benfica. Se por um lado o tipo consegiu estragar-me o prazer de apreciar devidamente o golo da minha equipa, por outro lado deixou-me ainda mais desiludido quando a jogada acabou por não dar em nada... Poucas vezes odiei tanto uma pessoa como naquela altura... Logo a seguir outra besta encarregou-se de anular um golo limpo ao Benfica e, diga-se de passagem, consegui odiá-lo ainda mais... O livre arbítrio é bom, mas devemos ter cuidado ao usá-lo... Não podemos ter a pretensão de querer mudar o passado... A bola estava lá dentro, eu sei que a vontade do árbitro era defendê-la ele próprio, não conseguiu... Nem tudo corre como nós quremos... É assim a vida... Deixava passar e estava tudo bem... Quis abusar do livre arbítrio e foi o que deu...)

A gerência deseja a todos os frequentadores deste estabelecimento um Feliz Natal, se não nos virmos antes! (imaginem que isto está escrito numa montra com aqueles sprays de neve artificial e com umas luzinhas à volta que é para ficar mais bonito)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Cantinho de solidariedade natalícia



Post para ser lido ao som de "If You Don't Know Me By Now" dos Simply Red ou "My Heart Will Go On" de Celine Dion

Como estamos no Natal e como já estou um bocado farto que isto seja o "antro de maledicência" a que estão habituados resolvi dedicar este pequeno espaço à caridade. Acho que todos devemos tentar contribuir para um Mundo melhor. Mesmo...

Sei que não vou mudar muita coisa com isto, mas pelo menos tento e isso é que é importante. Se, por um lado admito que o faço com uma certa motivação egoísta, a de não me sentir tão mal perante as situações terríveis que este Mundo me proporciona porque fiz a minha parte (culpem-me por ser humano). Por outro lado se todos fizessem algo (tal como eu) e tentassem alertar as consciências para os dramas da sociedade, este Mundo não estaria no estado em que está.

Sei que, pelo menos, os 3 leitores deste blog vão ficar sensibilizados (talvez fosse mais eficiente eu mandar uma SMS a cada um, mas vale a tentativa). Eu vou fazer por isso. E o caso é tão dramático que é impossível ficarmos indiferentes.

A causa para a qual vos venho alertar é o desemprego, nomeadamente o desemprego do Santana Lopes. Ninguém tem nada para dar que fazer ao homem? É desesperante ver uma pessoa a dispor-se à humilhação da maneira que ele se dispõe só porque não tem nada que fazer. Dói-me o coração ver alguém a vender o amor próprio e a dignidade só porque precisa de sobreviver. Sempre que há uma eleição lá vem o Santana que nem rato espreitar o furo a ver se arranja algo que fazer durante uns mesitos, mesmo sabendo que vai ser humilhado, enxovalhado, gozado e derrotado.

Não se riam! O homem também tem sentimentos! Chega de vê-lo a candidatar-se a eleições como se não fosse nada connosco. Estamos a destruir o Pedro com a nossa indiferença. Que sociedade fria e cruel é esta que vê alguém em pleno sofrimento e age como se nada fosse e, se for preciso, ainda participa na chacota. E chamam-lhe nomes! Coitado! Não sei como conseguem dormir de noite.

Quando o Santana perdeu as eleições para o PSD ainda tive a esperança que este tormento acabasse, que ele, finalmente, arranjasse um emprego decente e honesto, que, finalmente, encontrasse um rumo... Aliás, sempre que ele perde umas eleições eu tenho essa esperança. Até à próxima eleição, até ver o Santana colocar-se mais uma vez, qual menino de 8 anos franzino, de pernas tortas, de calções com suspensórios e óculos num recreio repleto de rufiões de 14 anos já com barba, no meio da zaragata só para sobreviver.

E eu sei que neste momento, vocês estão: "sim, de facto é triste, mas o que podemos fazer? É mau mas a vida continua...". Sim, é mau, mas a vida não continua. Pelo menos a vida como a conhecemos. A vida não pode seguir o seu curso normal quando há um homem, de carne e osso, a passar pelo sofrimento que o Pedro passa. A vida é mais do que mandar umas postas de pescada e ver o telejornal e acreditar que todos os males só acontecem aos outros. Imaginem que têm um Santana Lopes na família. Iam gostar desta situação? Pois, o Santana também tem família e não podemos olhar para isto como se nada fosse. Quanto à vossa pergunta, eu não me esqueci dela. Mas pelos vistos vocês esqueceram-se e eu vou ter que repeti-la. Esses cérebros de minhoca não dão para mais do que gozar com o pobre do Santana, não é? Vocês perguntaram-me o que é que podem fazer.

Podem fazer muito. Para começar dêem um emprego ao homem. "Ah, mas eu não tenho empregos para dar, quem me dera ter para mim e não sei quê...". Lá estão vocês com a vossa má vontade. É óbvio que a maioria de vocês não tem um cargo de administrador ou de dirigente desportivo para lhe oferecer. Compreendo e nem vou entrar por aí. Mas de certeza que, se se juntarem e discutirem a sério esta questão, sem a galhofa habitual com que falam do Santana, lá descobrem que um de vocês tem um cano roto em que o Santana podia dar um jeitinho (diz que o homem tem jeito para tapar buracos...), ou um interruptor para mudar ou o sifão entupido ou uma casa para pintar...

De certeza que, agora no Inverno, algum de vocês teve necessidade de limpar a chaminé... Lembraram-se do Santana? Claro que não! Nem sei porque é que pergunto... Só se lembram dele quando é para gozar, agora quando é para limpar chaminés "ah vou chamar o Serafim, que ele faz melhor serviço", "pois, mas o Serafim tem um Opel Corsa e foi de férias a Benidorm...", "Ah, pois, não sei, é capaz". Enfim... Não me enganam com essa atitude.

E se discutissem esta questão um pouco melhor ainda chegavam à conclusão que, pelo menos um ou dois de vocês conhecem alguém que precisava de uma senhora para ir lá a casa dar umas horinhas por semana a passar a ferro e a limpar os azulejos da cozinha uma vez por mês. Mas porque é que tem que ser "uma senhora"? Não pode ser o Santana? "Ah, mas ele não fica bem de avental". Pois, nem sei como responder a algo tão fútil... Eu digo-vos como é que ele não fica bem: Ele não fica bem se continuar a ser humilhado da maneira que é! O avental dar-lhe-ia uma dignidade que ele, neste momento, não tem!

Todos conhecem alguém que teve um filho bebé e que até gosta de sair à noite de vez em quando mas não tem ninguém que fique com ele e até pagava uns tostões mas está mesmo complicado para arranjar uma babysitter? Ouvi alguém dizer Santana? Espero que sim... (para quem não percebeu, é mesmo uma ameaça...)

De certeza que qualquer um de vocês tem um amigo de um amigo que tem uns contactos na Destak que o conseguia pôr a distribuir jornais num semáforo qualquer? Toda a gente conhece alguém que conhece um indíviduo que tem uma churrasqueira que está sempre a precisar de alguém para assar frangos. Vão-me dizer que o Santana não servia para isso? Pode não ser muito bom político, nem trapezista, nem neurocirurgião, mas a assar frangos conseguia ser minimamente competente e era sempre menino para animar a malta com umas histórias do Sá Carneiro ou da Cinha Jardim. Vocês têm é má vontade, desculpem lá que vos diga!

De certeza que, pelo menos um de vocês conhece alguém que emprestou dinheiro que nunca mais viu, e que até anda a pensar numa maneira de cobrá-lo e que, por acaso, até tem um fraque encostado do último Carnaval e que está sempre a dizer "É pá, já tenho o fraque, só faltava o cobrador..."? Eu conheço alguém que até fica muito bem de fraque... É preciso dizer mais? Parece que sim porque vocês nem assim percebem... Estou a falar do Santana que não é entroncado, nem é africano mas daria um excelente cobrador de fraque. Quantos de nós gostariam de ser perseguidos por um cobrador de fraque? Agora pergunto, quantos de nós gostariam de ser perseguidos pelo Santana Lopes vestido de fraque? Ui! Escusam de ir a correr pagar as dívidas, só estou a colocar uma hipótese... Se bem vos conheço, com a vossa má vontade, nem vos passou pela cabeça dar este biscate ao Santana, apesar de ser uma excelente ideia...

Na parte que me toca já ando a tentar arranjar-lhe uns biscatezitos... Conto que vocês façam o mesmo. É uma questão de imaginação. Troquem os contactos aí na caixa de comentários, juntem-se para tomar um cafézinho, criem uma associação (porque não "Associação dos Amigos do Santana"?), façam um single de solidariedade, umas rifas, um leilão, umas pulseirinhas de borracha cor-de-laranja, arranjem uns amigos sem braços para pintar uns postais com a boca... Não sei! Mas qualquer coisa serve para salvar um homem que faz questão de estar sempre à beira do abismo... E de cair do abismo e de se partir todo e de se voltar a meter à beira do abismo e assim sucessivamente... Até que algum de nós o ajude... Ajudem-me a ajudar o Santana! Juntem-se a mim no movimento:

Save Santana Lopes!


PS Já repararam na minha pinta a colocar links para o público que nem um maluco? Não digam a ninguém...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Algo vai mal no murroalho!


Isto do Mundo está a funcionar muito mal. No outro dia ouvi uma voz que me disse o seguinte:

- Vai reunir um casal de cada espécie de animais existentes na Terra, constrói uma arca de madeira e espera que chova… Vá! Andor!

Não sei o que isto quer dizer mas, obviamente, fiz ouvidos de mercador Até porque nessa altura estava a discutir a obra de Nietzsche com o meu amigo Saul (sim, vocês conhecem-no, o pequeno Saúl, do "bacalhau quer alho"… Hoje em dia é um nihilista convicto depois de descobrir que o animismo do qual era adepto e que o fazia acreditar que o bacalhau tinha vontade própria ao ponto de querer literalmente alho era só uma grande partida que lhe pregavam para o obrigar a vestir-se de Quim Barreiros… Só uma partida como estas pode levar alguém a vestir-se de Quim Barreiros de livre vontade… Isto é válido para o próprio Quim Barreiros…).

Embalado pelo tom da conversa respondi à voz:

- Tu não és Deus! Deus morreu!

- Morri? Então não estou aqui a falar contigo?

- Quem é que me diz que o facto de eu estar a ouvir a Sua voz não são alucinações devidas à feijoada à transmontana que comi ao almoço, que tão mal me caiu?

- Não é não… Queres ver?

BAM! Pulverizou o pequeno Saúl com um raio… Mesmo à minha frente…

- Eh lá! Grande truque… Mas, obviamente, não chega… - disse eu – Eu sempre avisei o Saúl que não devia sair à rua com tanto metal, mas ele sempre fez questão de andar vestido como o Homem de Lata do Feiticeiro de Oz… Dizia-lhe: "Saul, não saias à rua com tanto metal que ainda vais ser pulverizado por um raio…". Ele não me ligava. Preferia usufruir dos benefícios que essa indumentária lhe trazia junto do sexo feminino. Agora não sei que lhe faça, está ali pulverizado…

- Sérgio, não sei o que queres que te faça mais… Peço-te por favor! Anda lá, constrói a arca…

- Primeiro, quem é o Sérgio? Depois quem és Tu para me dares ordens?

- Sérgio és tu…

- Ah, pois sou… E a segunda pergunta?

- Sou Deus…

- Isso não chega… Boa tarde e passe bem…

- OK! Já que não me podes ajudar vou ali falar com o Fernando Ribeiro dos Moonspell.

- Força! Acho que não podes escolher melhor profeta…

Pela minha experiência, entre Deus e um operador de Telemarketing não há qualquer diferença. É preciso mandá-los calar 1500 vezes antes que eles nos deixam em paz. Ao menos os operadores de telemarketing ainda têm coisas interessantes para nos oferecer como o Canal Benfica, instalações grátis da Meo ou telefone + TV + internet por 49,99 €. Se o melhor que Deus pode fazer por nós é mandar-nos atrás de animais e construir uma arca gigante bem que pode começar a dizer adeus à sua profissão. Não me parece que é assim que ele vai chamar pessoas à boa e velha Igreja… É que o ópio do povo já não é o que era, pelo menos comparado com a televisão.

No entanto, se há lição que podemos retirar deste acto divino, chamemos-lhe assim, é que isto só lá vai com um dilúvio. É que isto do Mundo está a funcionar mesmo muito, muito mal… É que eu nem sei se lhe hei-de chamar Mundo, é que chamar Mundo a este Mundo é, tendo em conta as diferenças existentes, uma injustiça para com o Mundo de há uns tempos atrás. Como tal, vou passar a referir-me a este Mundo como murroalho. É um nome bem mais apropriado ao sítio onde hoje vivemos. E, já agora, isto do Murroalho está a funcionar muito mal!

Todos os dias acordamos neste Murroalho que Deus nos deu e ficamos a pensar: o que raio vai ser de nós? É o aquecimento global, é o crime, é a corrupção, é a falta de respeito para com os direitos humanos básicos da esmagadora maioria da população mundial, é o Sr. Capitalismo que sempre nos garantiu acesso incondicional a bens supérfluos e a gasolina no carro que está a dar o badagaio, sou eu que estou para aqui a escrever isto em vez de fazer qualquer coisa de útil para a sociedade… Eu sei lá… Mais valia começar isto de novo. É que não estou a ver solução nenhuma para o murroalho…

É possível começar de novo? Ou isto do murroalho é um daqueles erros irreversíveis?

O que é que fazemos ao Murroalho? Não sei... Talvez, mandá-lo pró...

(tocam as tarolas e eis que chegámos ao clímax de um texto sem sentido)

P.S. Sou só eu que penso que o verdadeiro Manoel de Oliveira foi trocado aos 50 anos por um Manoel de Oliveira supelente de 20 anos e assim sucessivamente até ao ponto em que o Manoel de Oliveira que supostamente vai fazer 100 anos amanhã é um jovem de 50? Ou isso ou ele é filho de uma tartaruga, o que, a ver pelo ritmo dos seus filmes, é bem provável... É que o homem está bem conservado demais para ser verdadeiro...

Agora a sério, é emocionante ver uma pessoa daquela idade com tanta lucidez e tanto dinamismo... Algo me diz que ainda vai fazer filmes durante muito tempo...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Diálogo de solitária

- De onde vem a vida? - perguntei eu a mim mesmo.
- Muito boa pergunta! - acabei por dizer à minha pessoa - Mas não sei responder a isso, caro amigo... É que se soubesse não perguntava...
- Eu tenho essa mania de fazer perguntas complicadas.
- Pois... És um malandreco. - repliquei eu.
- Como é que sabes? Nem sequer me conheces... - respondi eu ao meu interlocutor, eu próprio.

- Será que se saísse daqui as coisas melhoravam? - voltei a perguntar-me.
- Talvez... Mas não saias... - respondi-me.
- Então e porquê? - inquiri-me, não escondendo um ar intrigado.
- É que eu não quero ficar sozinho.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Aqui vai disto:

Ponto 1

Basta! Já esperei tempo demais. Não sou muito de entrar em euforias mas confesso que esperava ter acordado num novo Mundo no dia 5 de Novembro.

Esperava, no dia 5 de Novembro, acordar, sair da cama, abrir a janela, ser bafejado por um sol radiante, enquanto observava uma manada de cavalos selvagens a correr por um prado verdejante com um majestoso arco-íris como pano de fundo. Anjos tocavam harpa, anunciando-me que o Mundo tinha acabado de chegar a uma nova era. Em vez de cavalos vi carros a buzinar. Em vez de um prado verdejante vi o asfalto cinzento e os passeios repletos de cocó de cão do costume. Em vez de um arco-íris um outdoor gigante da Popota. Em vez de bafejado por um sol radiante, fui insultado por um grupo de miúdos a caminho da escola que estranharam o pranto de quem viu o Mundo cair a seus pés (sou capaz de mandar berros muito estridentes quando o Mundo cai a meus pés). Foi isto que vi da minha janela no dia 5 de Novembro...

Por momentos pensei: "Não estarei eu a pedir demais? Ainda não houve tempo. Talvez amanhã consigas ver os cavalos da tua janela. Talvez amanhã possas banhar-te nas águas límpidas do riacho que passará em frente da tua casa, exactamente no mesmo sítio onde hoje está aquele descampado com armazéns abandonados para onde os drogados vão e que a câmara nunca mais vem demolir. Dá um tempinho. Amanhã verás a mudança". Fui paciente e esperei. No dia seguinte a mesma coisa. Nem saí de casa. A seguir, o mesmo. Nada de cavalos, nada de prados verdejantes... Jurei que o meu próximo banho seria naquele riacho. Mas nada de riacho, nada de banho.

Mas decidi esperar pacientemente. Afinal foi-me prometida mudança e eu costumo acreditar nas promessas que me fazem. Mas hoje, finalmente explodi. E num acto de revolta resolvi... bem... vim escrever para o blog (não sou muito de actos extremos. Sonho um dia ter a coragem de, em actos de revolta ligar para o fórum da TSF).

Durante meses, um senhor chamado Barack Hussein Obama andou a prometer-nos mudança. Durante meses emocionou-nos com os seus discursos e fez-nos acreditar que, com ele, o Mundo seria um lugar melhor. Os portugueses acreditaram em ti, Barack. Não que devessem, visto que não tens obrigação nenhuma em relação a eles.Mas acreditaram.

Quando te insultavam, presenteando-te com insultos tão terríveis como "socialista", nós revoltávamos-nos contigo (aliás a conotação negativa que a a palavra "socialismo" tem nos EUA tem a ver com o nosso Partido Socialista, não é?). Quando confirmávamos que estavas à frente do teu adversário nas sondagens (quem? Aquele cujo único papel foi tornar a tua vitória ainda mais brilhante? Aquele vilão rídiculo e insignificante que só serviu para realçar a grandeza do herói.) regozijávamos contigo.

Ganhaste as eleições... E mudança, nada...

Ficarei à espera de alguém que, tal como tu, me faça acreditar... Provavelmente, tal como tu, irá desiludir-me...

Com tudo isto, acho que consegui ser das primeiras pessoas a deitar abaixo o Obama! E a mostrar-me desiludido por este não corresponder às expectativas. Daqui a um mês ou dois outros se seguirão. E ele ainda nem tomou posse...

Ponto 2

Já que falo do Barack Obama aproveito para dizer-vos que foi graças a mim que ele ganhou. Há uns meses, ainda este não tinha ganho as primárias, num momento de rara maturidade resolvi adquirir isto:


E com isto contribuí com 1 dólar para a campanha do novo Presidente dos EUA. Para além do investimento que fiz (hoje uma action figure do Roosevelt vale, certamente, uma fortuna. Imaginem quanto não valerá esta daqui a umas dezenas de anos. Os meus netos vão ser milionários), permitiu-me dar o contributo necessário para a vitória de Obama. Não contribuí para a campanha de Al Gore, ele perdeu. Não contribuí para a campanha de John Kerry, ele perdeu. Contribuí para a campanha do Obama, ele ganhou.

Podem agradecer-me pelo Mundo melhor onde hoje vivemos...

De nada...

Ponto 3

A internet e a evolução do nível de vida permitiu-nos, entre outras coisas, comunicar mais do que nunca. Tudo o que é informação e comunicação está mais acessível, o que, à partida, parece uma coisa boa. Infelizmente não é, porque somos obrigados a ouvir aquelas pessoas que até há pouco estavam fechadas em casa a enviar as suas mensagens de ódio por pombo correio, a gritá-las pela janela ou entre dois copos de vinho branco com gasosa na tasca de um qualquer bairro. Já nessa altura chateavam, mas nunca, como hoje estamos tão vulneráveis a eles.

Eles estão em todo o lado: nas caixas de comentários das notícias dos jornais on line (então nos de desporto...), nas televisões, nas revistas, nos blogues... É impossível fugir deles...

Hoje, por acidente, ouvi um industrial qualquer do Norte de Portugal no Fórum da TSF a defender a avaliação dos professores porque "há alguns que deviam ir presos".

Não fazia a mínima ideia que uma das consequências do processo de avaliação dos professores seria colocá-los na prisão. A menos que numa aula assistida este mandasse um tiro a um aluno, acho que essa não é uma das consequências previstas.

No entanto achei interessante esta hipótese. Acho que impedir os professores mal avaliados de progredirem na carreira não é castigo suficiente. Logo imaginei uma série de castigos a que se deveriam submeter os professores que fossem classificados com Insuficiente:

  • Pena de morte (nada mau para começar)
  • 4 anos no Tarrafal
  • uma semana seguida a ouvir o novo CD do André Sardet (eu trocava esta pela pena de morte...)
  • Um fim-de-semana romântico com Maria de Lurdes Rodrigues (que melhor motivação para um professor se esforçar para ser bem classificado do que evitar um castigo destes?)
  • ...

Podem dar sugestões...


P. S. Decidi colocar na barra lateral a aplicação dos seguidores. Próximo passo: criar um culto.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Na casa de Saddam


Neste fim-de-semana tive a oportunidade de ver a mini série da BBC "House of Saddam" sobre a vida do ditador iraquiano que todos nós conhecemos e, nalguns casos, admiramos (esta é para vocês meus leitores sunitas! Para não dizerem que eu me esqueci de vocês).

A série é muito interessante e muito boa não só historicamente mas também artísticamente. Se quiserem posso emprestar-vos. É uma mistura de série histórica com Sopranos e, em algumas partes, com o "Música no Coração" (a parte em que a mulher de Saddam e as filhas são obrigadas a fugir devido à invasão americana é muito parecida com o fim do "Música no Coração") e tem, de facto, muita qualidade.

O único político português sobre quem se poderia fazer algo do género seria, talvez, o Major Valentim Loureiro: "House of Valentim". Só que, neste caso, seria uma mistura de série histórica, com Sopranos e, nalgumas partes com um teledisco dos Ban e um anúncio da Worten (por causa daquilo dos electrodomésticos... era uma piada...).

Aprendi mesmo muito com a série "House of Saddam", nomeadamente que Saddam falava fluentemente Inglês, embora com um leve sotaque iraquiano. Assim como quase todos os iraquianos que apareciam no filme. Desconhecia que a língua oficial do Iraque fosse o Inglês e a única vez em que ouvi uma língua diferente foi quando um militar americano interrogou um dos guarda-costas de Saddam em árabe. Este respondeu-lhe na mesma língua. Fê-lo por boa educação visto que, momentos antes, conversava animadamente com Saddam em Inglês.

De salientar que o referido guarda-costas de Saddam era extremamente parecido com o Prof. Neca (talvez fosse mesmo o Prof. Neca... quem sabe se numa das suas emigrações para o Médio Oriente ele não terá sido guarda-costas de Saddam? Ninguém sabe... Aliás, ninguém sabe sequer onde é que ele está agora... talvez esteja em Guantanamo com o Artur Jorge...).

A série deixou-me a imaginar como seria se, por artes mágicas, eu trocasse de lugar com Saddam (imaginando que este ainda era rei e senhor do berço da civilização). Numa bela manhã eu acordaria no lugar do tirano e este, por sua vez, acordaria no meu lugar.

Teria a sua piada ver o Saddam lá na empresa, a aturar ditadores bem piores do que ele, a ter que tirar fotocópias, a ter que fazer powerpoints e a ter que levar com o ar condicionado numa temperatura que um esquimó classificaria de "fria como o caraças" e que me permite, nos tempos mortos, dedicar-me à construção de bonecos de neve, a fazer corridas de trenó e a transformar copos de sumo de limão em Calipos... Não me parece que o Saddam tivesse estofo para ser estagiário e, muito provavelmente, passado uma hora estaria a chorar que nem um menino curdo cuja família tenha sido chacinada por armas químicas. Qual enforcamento qual quê! Castigo a sério seria pôr o Saddam no meu lugar!

Quanto a mim, acordaria nas calmas num dos palácios de Saddam, numa cama bem confortável e pensaria cá para comigo:

- Olha, estou no lugar do Saddam! - visivelmente surpreendido, pensaria nas consequências que este facto teria no meu futuro imediato - Porreiro! Já não tenho que entregar aquele relatório! - e pensaria, satisfeito no pobre Saddam apanhado de surpresa no meu lugar a sofrer as terríveis consequências da não entrega do referido relatório.

Virava-me para o lado e faria aquilo que sempre faço quando acordo no lugar de um ditador: continuava a dormir. O bom de acordar no lugar de um ditador é que, a fasquia está tão baixa que, por muito pouco que façamos, será sempre bem melhor do que aquilo que o nosso antecessor fez. Não iria matar curdos, nem opositores, nem os meus genros. Não tem muito a ver com a minha personalidade... Só o facto de dormir mais um bocadinho antes de açoitar o malandro do meu filho Uday que se safou demasiado impunemente de assassínios e violações e de deixar de chacinar opositores e povoações inteiras de curdos seriam vistos pela comunidade internacional como grandes progressos...

E é quando, perdido nestes devaneios, me vêm acordar:

- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu...

- Calma... como é que te chamas?

- Mohamed, senhor. Aqui todos nos chamamos Mohamed.

- OK, Mohamed... dou-te... sei lá... um milhão de dólares se me deixares dormir mais 5 minutos...

- Sim, sua eminência...

Passados 5 minutos:

- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu... Mas primeiro gostaria de receber o meu milhão de dólares... se fosse possível...

- Faço-te já uma transferência bancária... Diz lá então o que se passou...

- Um grupo de rebeldes infiltrou-se na televisão e disse coisas horríveis sobre a sua pessoa... - Mohamed olha para baixo, com um ar culpado, não escondendo o medo da ira do seu líder.

- Calma, Mohamed... Não pode ser assim tão mau... Mas foi sobre mim ou sobre a minha pessoa? - a língua árabe tem destas maravilhosas chalaças e permite-nos, mais do que o português, este tipo de humor inteligente e elaborado característico de empregados de mesa.

- Sobre si, sua Eminência... Eles disseram que... e estou só a citar, Sua Eminência.... eles disseram que a Sua Eminência "cheirava mal dos sovacos e tem sempre ranho no nariz" - ao dizer isto Mohamed esconde-se debaixo da cama presidencial.

- Ah! Ah! Ah! Isso tem muita graça... Eu sabia que esta minha sinusite me iria trazer problemas... Quanto aos sovacos, com 50 ºC o que é que eles queriam? Se me quiserem recomendar um desodorizante que o façam, é que eu já tentei tudo... E que mais disseram eles?

Um Mohamed incrédulo com uma resposta nada habitual do seu senhor responde-me:

- Não disseram mais nada, Senhor... É que...

- "É que" o quê? Desembucha lá, Mohamed...

- Eles foram decapitados...

É neste momento que eu caio em mim e vejo que ser tirano não tem mesmo grande piada e que prefiro de longe ser estagiário...

(O meu objectivo era continuar esta história e desenvolver uma série de ideias que tenho mas, sinceramente, não me apetece... Além disso, como é muito pouco provável eu acordar no lugar de quem quer que seja, tenho que fazer o tal relatório... Mas daria uma bela comédia do Ralph Schneider... Pode ser que continue esta saga mais tarde...)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A problemática dos restaurantes com problemas de exaustão


O amor é como um restaurante com problemas de exaustão. Quando saímos, temos um cheiro a fritos de tal maneira intenso e de tal maneira entranhado que, tão cedo, não conseguimos esquecer que estivemos no dito restaurante. É a sua maneira de nos lembrar que estivemos lá.

Quando isso acontece, ao menos que a refeição tenha sido barata...

(eu digo isto porque o meu último e único grande amor vendia rissóis para fora. Logo, a minha percepção sobre o que é o amor está indissociavelmente associada ao cheiro a fritos. Bastava aproximar-me a menos de 20 metros dela para ficar marcado com um contundente e gorduroso cheiro a croquetes. Tinha a vantagem de, nessa altura não ter qualquer tipo de preocupação com o meu odor corporal. Por muito mal que cheirasse aquele cheiro a óleo Fula abafava qualquer coisa. Acho que estes hábitos talvez estejam na origem da minha inépcia para encontrar de novo o amor...)

Mas não é sobre o amor que vou falar. Não que o tema não me agrade mas porque neste momento estou mais preocupado com restaurantes com problemas de exaustão.

Só quem sabe o que é o verdadeiro amor percebe esta questão dos restaurantes com problemas de exaustão. Supostamente uma pessoa vai a um restaurante para comer e, eventualmente, passar um bom momento com amigos enquanto desfruta do melhor (ou do pior) que o mundo da gastronomia tem para nos oferecer. Não é suposto o restaurante acompanhar-nos depois disso. É como se quiséssemos sair do restaurante e ele nos estivesse a dizer: "Não! Volta cá para dentro! Mas o que é que se passou? Não gostas da comida?".

Fazendo com que recordemos constantemente o cheiro das pataniscas que acabámos de devorar quando a última coisa que queremos é voltar a comer pataniscas. Lembrando-nos que para uma coisa boa há sempre o reverso da medalha. À ideia de termos algo que nos faz felizes, surge sempre associada a sua perda. É inevitável! E, mesmo que, imersos em felicidade nos esqueçamos disso, a perda é sempre possível e muito provável. Para uma coisa boa como um bife com batatas fritas está sempre associada uma coisa má como o cheiro a fritos. Vamos deixar de comer bife com batatas fritas? Não. Ou seja, podemos tentar fugir, mas o cheiro a fritos vai acabar sempre por nos apanhar...

E a solução infelizmente não passa por substituir aquele cheiro por outro cheiro. Por exemplo, se tentarmos substituir o cheiro a fritos intenso por outro cheiro igualmente mau e facilmente entranhável na roupa como o cheiro do fumo de tabaco aquilo que acontece não é algo do género "entra um, sai outro". Não. O que acontece é que vamos fundir os dois cheiros criando um aroma igualmente mau... mas a duplicar...

Enfim, apesar de tudo não há nada melhor do que um bom restaurante com problemas de exaustão e com um menu de pratos bem gordurosos... Mesmo com o cheiro...

P.S. O meu último amor não vendia rissóis para fora, nem, tão pouco, cheirava a fritos... Mas o seu cheiro continua bem entranhado...

3 de Novembro

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Vamos odiar um bocadinho...


Ontem, ao abrir a revista Sábado, fiquei estupefacto. É que, precisamente no momento em que estava a abrir a revista um corcunda dirigiu-se a mim e, com a maior das educações, diz-me:

- Meu caro amigo, pediram-me para lhe informar que, ao contrário daquilo que julgava, as idiossincrasias características de cada um de nós não são mais do que uma maneira paradoxal de, através da diferença, nos tornarmos ainda mais semelhantes.

- Pois claro, meu cavalheiro. - acedi eu antes de lhe dar um valente pontapé naquela zona que está entre a coluna vertebral e a omoplata direita que, diga-se de passagem, é extremamente difícil de identificar num marreco. É assim que eu costumo tratar os deficientes físicos que me abordam na rua com comentários sem sentido. Algo normal no meu dia-a-dia mas que não deixa de me causar uma certa estupefacção. Por mais que tente não me consigo habituar.

Continuei a actividade que estava a desempenhar no momento em que fui abordado pelo corcunda e acabei de abrir a revista Sábado. E li uma frase ainda mais imbecil do que aquela que havia sido proferida pelo já referido transeunte com um problemazito nas costas. A frase era de Margarida Rebelo Pinto o que, só por si, nos permite antever algo de realmente estúpido. No entanto não poderia deixar de partilhar convosco o nobre pensamento desta ilustre criadora de calços para móveis.

Vocês podem dizer que eu estou a ser demasiado severo com a senhora, que não é assim que se tratam as pessoas especiais e que, apesar de tudo ela tem contribuído muito para a felicidade de muita gente, nomeadamente de pessoas cujo mobiliário necessite de calços. Eu concordo e, em situações normais, limitar-me-ia a ir visitá-la ao jardim zoológico, como faço todos os anos no 3.º domingo de Fevereiro. No entanto, uma pessoa que me faz uma declaração de ódio do calibre que ela me fez só merece ser tratada assim. Acabaram-se os amendoins, Margarida!

Ela disse, então, o seguinte:

"Sou snobe e elitista. É endémico, instintivo e mais forte do que eu. Detesto aquelas pessoas que dizem "vermelho" e "bom apetite". Sou snobe, não queque. Também não sou dondoca. Escrevo todos os dias das 8h às 12h"

Não percebi exactamente o que ela quis dizer com isto e não faço a mínima ideia do que é "dondoca" nem o que é que isso tem a ver com o facto de ela ter um extenuante dia de trabalho de 4 horas. Aquilo que eu retirei desta brilhante citação é que ela detesta pessoas que dizem "vermelho" e "bom apetite". E aí, Margarida, pisaste o risco. Lamento dizer-te mas meteste-te com as pessoas erradas. Somos muitos, os que temos esse incómodo e subversivo hábito de usar a palavra "vermelho" e a expressão "bom apetite" e sei que falo por todos quando digo: "estás bem tramada!". Já sabia que incomodávamos muita gente com esta atitude mas não merecíamos esta declaração de guerra. Principalmente da pessoa que inventou esse "Ser poeta é ser mais alto" da literatura para tias: a expressão "cabelinho à foda-se" (pior do que uma pessoa que tenha cabelinho à foda-se, só mesmo a expressão "cabelinho à foda-se").

Quando alguém me pergunta, para testar a minha cultura benfiquista, qual é a cor do Benfica eu respondo com orgulho e convicção: "Vermelho!". Normalmente, a única reacção que obtenho quando digo isto é um "Muito bem, acertaste" ou, no programa de televisão certo, 10.000 €. Só que se tivesse esta ousadia à frente da Margarida Rebelo Pinto era muito provável que levasse com um salto agulha no topo da cabeça e um balázio no meio dos olhos.

Apesar de não usar muito a expressão "Bom apetite!", já que habitualmente desejo que as pessoas tenham uma crise de refluxo gástrico depois das refeições, estou solidário com esta malta. Já me disseram muitas vezes "bom apetite", nomeadamente em restaurantes e, com excepção daquele indivíduo que me desejou bom apetite com cara de quem parecia que me estava a desejar uma bela diarreia, nunca reagi mal. Antes pelo contrário... No entanto, que nenhum destes pobres seres se atreva sequer a lançar semelhante impropério à Margarida Rebelo Pinto... Nem quero imaginar a cena... Saltos agulha a perfurar olhos e foie gras no ar... E isto é só um preliminar...

Margarida, podes não concordar, mas também somos seres humanos. Não, nem todos temos vidas tão interessantes como as personagens que retratas nos teus livros. Eu, por exemplo, por mais que tente, e Deus sabe que tenho tentado, nunca hei-de ser uma divorciada. Não, nem todos passamos nas nossas vidas por episódios tão espectaculares que mereçam ser plagiados de uns livros para os outros. Mas, unidos, lutaremos contra esse flagelo que tu personificas. Por mais que nos tentem impedir diremos sempre "vermelho", até ficares "vermelha de raiva". Desejaremos sempre "bom apetite" nem que, para isso, tenhamos que escrever um livro intitulado "bom apetite", que, ainda assim, será um título bem melhor do que "Sei lá" ou "Português Suave" (porque não SG Ventil, Margarida? O catarro é o mesmo...). É óbvio que não provocará situações hilárias como aquelas que pretendeste egendrar quando chamaste ao teu livro "Sei lá". Esta situação...

- Como é que se chama o teu livro, Zé?
- Ensaio Sobre a Cegueira.

...nunca será tão hilariante como esta situação:

- Como é que se chama o teu livro, Margarida?
- Sei lá.

- A sério, como é que se chama o teu livro?

- Sei lá.

- Lá estás tu com as tuas coisas. Como se não bastasse passares o dia a babar-te à janela e a insultar os transeuntes... Vai mas é trabalhar!

Um tanto ou quanto infantil mas hilariante...

Pois, Margarida, cuidado com as guerras que crias... Nem imaginas aquilo que uma pessoa que diz "vermelho" é capaz de fazer...

Umas horas mais tarde olhei para a capa da Visão e percebi a frase da Margarida Rebelo Pinto. O tema da reportagem era "Sobreviver a um AVC". E quem estava na capa? A pobre Margarida, que teve um AVC aos 41 anos... Deve ter deixado sequelas...

P. S. Agora a sério, eu nunca li a Paula Bobone e não percebo mesmo qual é o mal de dizer "vermelho" ou "bom apetite"... Serão o "caralho" ou o "foda-se" da nova geração? Alguém me explica?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sobre a homossexualidade na extrema-direita e algumas premissas para musicais de La Féria...





Quando olhava para os Village People achava sempre que faltava lá qualquer coisa. E muitas vezes olhei para eles, caros amigos... Quer como artistas, quer como exemplos para a vida... O índio dos Village People foi, desde cedo, o meu role model e é a minha segunda figura paterna (a primeira é, obviamente, o Carlos Castro). No entanto, sempre achei que faltava qualquer coisa. Um índio, um polícia, um motoqueiro, um cowboy, um militar, um operário da construção civil... Um grupo inquestionavelmente completo e harmonioso mas, na minha cabeça, longe da perfeição... Faltava-lhes uma pequena coisa para serem o tecto da Capela Sistina do disco sound. E ontem eu descobri... Depois de saber que Jorg Haider era o Sugar Daddy do seu delfim no BZOe (partido de extrema-direita austríaco do qual Haider era líder) eu descobri o que é que faltava nos Village People: um elemento das SS.

A história de Haider é enternecedora. E não, não estou a falar daquela parte em que ele se despistou a 140 km/h. Estou a falar do romance proibido do qual foi protagonista, uma espécie de Romeu e Julieta ou, nesta caso, Romeu e Júlio, passado no mais improvável dos cenários: os meandros da extrema-direita aústriaca.

Melhor mesmo era se Haider, em vez de ter mantido um romance com Stefen Petzner, tivesse mantido um romance com Francisco Louçã. Aí é que o nível de carga dramática do caso upa upa (deixo esta dica ao La Féria para o seu próximo musical... E de graça... Estou disposto a não ganhar nada com ela só para ter oportunidade de assistir a este inusitado musical...).

Mas não se pode ter tudo e, felizmente, a vida não é um musical do La Féria. Quando muito é uma novela da TVI, dada a quantidade de Paulos Pires com que me tenho cruzado ultimamente na rua: é o Paulo Pires brasileiro, o Paulo Pires inglês, o Paulo Pires sabichão, o Paulo Pires pedinte, o Paulo Pires cowboy, o Paulo Pires índio, o Paulo Pires veterano do Ultramar, o Paulo Pires modelo e actor...

No outro dia sonhei com uma pequena aldeia em que todos os habitantes eram Paulos Pires, todos iguais mas cada um com as suas características próprias. Comunicavam num idioma próprio em que todos os substantivos e verbos eram a palavra "Paulo Pires" ("- Ó Paulo Pires Sabichão, paulopira na esponja e anda paulopirar-me o carro!" "- Paulopira um bocado, Paulo Pires Tuning, agora estou a paulopirar um paulopivro policial..."). Tinham ainda um arqui-inimigo que os ia importunar de vez em quando. Arqui-inimigo esse que tinha um gato, cujo alimento preferido era Paulo Pires... Acho que já chega, já devem ter chegado lá. Isto é a aldeia dos estrumpfes (que esta semana fizeram 50 anos) só que em vez de estrumpfes, é habitada por Paulos Pires... Acho que a partir de agora vou escrever este blog em paulopirês. Enfim, outra grande ideia para um musical do La Féria...

E depois desta divagação, que tem lugar assegurado no Top 10 das divagações mais estúpidas em blogs com a palavra corta-unhas no nome, volto ao tema inicial: o romance de Jorg Haider. Este caso, para além de comprovar a minha teoria de que o pessoal de extrema-direita é apenas um grupo de pessoas fofinhas que quer apenas fazer o amor uns com os outros permite-nos fazer uma reflexão nunca antes feita sobre os grupos neonazis.

Primeiro, Haider, confesso admirador de Hitler, ter-se-ia tornado num prisioneiro de Auschwitz se tivesse o azar de ter feito as brincadeiras que fez em 1940. Já dizia o Hitler: "pior do que ser judeu é ser um líder de um partido de extrema-direita que pratica o coito com o seu número 2... Mesmo que esse número 2 seja tão ou mais jeitoso do que o Joseph Goebells... E eu bem sei aquilo que me tenho que esforçar para resistir aos encantos daqueles peitorais e daqueles braços semi-musculados... nem com muito músculo, nem com pouco... nem muito rijos, nem muito flácidos... mesmo no ponto... Com excepção daquele dia na sala de bilhar e daquele fim-de-semana prolongado no chalé das montanhas de Berchtesgaden nunca mais se passou nada...".

Segundo, permite-nos imaginar o que vai na cabeça de um tipo de extrema-direita, o que, até aqui, era impossível dada a profundidade das suas brilhantes mentes... Imaginem um comício:

Discurso de Haider: Os valores da família para aqui... A segurança dos austríacos para acolá... E os imigrantes não sei quê, não sei que mais...

Pensamento de Haider: Hmmm... aquele rapazinho ali da primeira fila é bem jeitoso... E aquele ar conservador... São os piores... Será que ele aceitará ir tomar um copo comigo amanhã? Sheisse! Amanhã não posso, já combinei ir fazer sauna com aquele imigrante ilegal argentino... Não passa de hoje, vou convidá-lo para vir comigo à biblioteca fumar um charuto e ler o Mein Kampf... de joelhos... Ai! Que maluca!

Permite-nos também, tirar conclusões acerca da maneira como se sobe nos partidos de extrema-direita. Até hoje sempre achei que os critérios que levavam alguém a progredir nestas organizações eram a média do número de pauladas em Africanos por noite, o estilo saudação romana, o brilho da cabeça, a originalidade das tatuagens... Critérios justos, objectivos e bem enquadrados na filosofia destes grupos... Mas afinal os únicos paus envolvidos neste processo não são usados para bater em africanos.

E com esta piada finalizo esta paulopiresca reflexão. Não vos maço mais com estilos de vida alternativos... A sociedade está a evoluir mas ainda não está preparada para lidar com estas questões... Um homossexual de extrema direita... O que virá a seguir? Um político inteligente? Uma feminista dona de casa? Uma freira a praticar parkour?

P.S. Só queria deixar um pedido de desculpas ao meu pai, que lê este blog... A minha figura paterna não é o Carlos Castro. Era só uma piada...

P. P. S. Depois de ter usado uma imagem de Haider em tronco nu ou de um indíviduo muito parecido com Haider em tronco nu num post acho que já fiz tudo o que havia para fazer na blogosfera...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Contribuinte feliz

Não podia ter começado a trabalhar em melhor altura. É uma óptima sensação sentir que tenho um papel activo no desenvolvimento da nossa sociedade, contribuindo, através do meu trabalho e do pagamento dos meus impostos, para a competitividade do nosso país e, principalmente, para a criação de melhores condições para aqueles que precisam. É por isso que digo que não podia ter começado a trabalhar em melhor altura do que esta que estamos a atravessar. É que agora eu sinto que o dinheiro dos meus impostos vai para quem realmente precisa.

Não sei se vocês, que também trabalham, sentem o mesmo. Mas o êxtase que sinto é tão grande que não cabe dentro de mim. O que leva a que transborde de vez em quando, fazendo-me soltar uns gritos histéricos em alturas não muito apropriadas (como no outro dia em que estava a assistir, empolgado, a uma partida de xadrez), ou levando-me a sentir uma vontade incontrolável de pegar numa cesta e ir apanhar fambroesas. E este êxtase que me atingiu que nem um raio tem um motivo muito claro, como já disse. Saber que o dinheiro dos meus impostos está a ser utilizado em prol da mais nobre das causas: emendar a cagada que os capitalistas andaram a fazer.

Eu tenho um fraco por banqueiros. Nada de homoerótico, nem nada que se pareça (embora ache o Jardim Gonçalves um homem bastante charmoso. E o Champalimaud? Aquilo é que era um homem!). É uma coisa paternal. Acho mesmo fofinho quando eles pegam em dinheiro e emprestam a pessoas que sabem que não o vão pagar. E depois, quando pegam no dinheiro que sabem que não vão receber e o emprestam a outras pessoas que também não vão pagar. Que doçura! E digam lá se também não ficam embevecidos quando os fofinhos dos capitalistas pegam nesse dinheiro inexistente e respectivos juros e o vendem a outros capitalistas igualmente fofinhos que, por sua vez, vão emprestar a quem não lhes vai pagar. Digam lá se isto não é mesmo cutxi-cutxi?

É como aqueles miúdos de 6 anos que nos espatifam o carro. Eles sabem que fizeram asneira e nós não podemos deixar de os recriminar. No entanto, ficamos sempre enternecidos e acabamos sempre por pensar: "este puto é mesmo levado da breca. Ainda vai longe". É por isso que me dá tanto prazer contribuir para ajudar os banqueiros. Eu sei que o que eles fizeram está errado. Vamos ser severos? Sim, senhor! Mas vamos condená-los? Claro que não! Eles não pensam. Devemos castigar o cãozinho que fez cocó no meio da sala? Claro que sim, tem que ser educado para não o repetir. Devemos condená-lo? Claro que não! É a sua natureza. É um animal irracional, que não distingue o bem do mal, o certo do errado, que reage por impulsos.
Com os capitalistas é exactamente a mesma coisa. Alguém que confie plenamente num sistema económico liberal completamente auto-regulado pensa? Eu diria que não... É uma ideia tão absurda que não poderia ter sido pensada por um ser racional. É por isso que é com todo o gosto que contribuo para limpar o seu cocó.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Quem quer vender a alma?


Os reality shows já não são novidade nenhuma, assim como também não é novidade que a Teresa Guilherme seja a figura de proa da introdução de todo o lixo em Portugal (não só o televisivo... acho que 1/3 de todos os resíduos tóxicos, sólidos e líquidos, existentes em Portugal é produzido por ela). Por muito baixo que desçamos, eis que surge a Teresa Guilherme para nos provar que para a baixeza não há limite. Enquanto tivermos a Teresa Guilherme podemos sempre acreditar que pior é sempre possível. Quando ela surgiu com o Big Brother todos achávamos que não há nada mais baixo do que nos deixarmos filmar durante 24 horas por dia e, com isso, expormos a nossa vida e a nossa família para podermos usufruir de uns míseros, fortuitos e decadentes 15 minutos de fama. Minutos esses que nos podem abrir muitas portas como as portas do hospital psiquiátrico ou as portas da prisão. Quando achávamos que o Big Brother era a degradação de todos os valores da nossa sociedade eis que surge a Teresa Guilherme para nos provar que o Big Brother é uma simples festinha na cabeça quando comparado com o pontapé no escroto que estamos prestes a levar.

O "Momento da verdade" apanhou os portugueses de surpresa. Principalmente os clientes daquele merceeiro que admitiu que os roubava e a sua mulher, que jamais pensaria que iria expor a violência doméstica de que é vítima em directo na TV.

Confesso que fiquei extremamente revoltado. Ver alguém a admitir na televisão que bate na mulher é degradante... Se há algo que não se deve expor é a violência doméstica. É algo para ser usufruído no conforto e na privacidade do lar e para ser disfarçado com óculos de sol e falsos sorrisos… Admitir publicamente a violência doméstica é um atentado a uma das mais enraizadas e fortes tradições do nosso país. A violência doméstica é uma instituição. Uma instituição só equiparável ao próprio casamento. Tão equiparável quanto, na maior parte das vezes, indissociável. Creio que é à violência doméstica que os opositores do casamento de pessoas do mesmo sexo se referem quando dizem que a legalização do mesmo vem prejudicar a "instituição" casamento. De facto, violência doméstica entre pessoas do mesmo sexo não tem assim tanta piada. Um dos pontos fortes que os defensores desta referem e que deixa de existir nos casos do casamento entre pessoas do mesmo sexo é aquela questão da subjugação do mais fraco pelo mais forte. Como uma encenação da selecção natural de Darwin debaixo do nosso tecto. Pôr duas pessoas do mesmo sexo à porrada iria ser como uma rixa num bar ou uma briga de miúdas.

É por isso que oferecer dinheiro ao tradicional homem português para ele admitir que bate na mulher é descer muito baixo. E obrigá-lo a admitir isto depois de ter assumir que por 250.000 € era capaz de ter uma relação homossexual é ainda mais baixo. É um paradoxo. Então um homem tão machão, tão tipicamente português, que seduz as mulheres dos amigos, que aldraba os clientes e que anda com rolos de dinheiro no bolso era capaz de ter uma relação homossexual? É destruir um mito, destruir um mito essencial para a nossa identidade como portugueses. Nestes tempos de crise, em que estamos a milhas de distância de outros países da Europa, põem o típico português a admitir que era capaz de se prostituir com outro homem? Nestes tempos em que a única coisa a que nos podemos agarrar para sentir alguma esperança no nosso futuro e para melhorarmos a nossa auto-estima em relação aos maricas dos nossos parceiros europeus é a convicção de que, apesar de estarmos na merda, somos uns machões, vêm dizer-nos que isso é um mito? Vêem dizer-nos que só batemos na mulher porque somos uns frustrados que queríamos era ser pagos para estar com homens? Vêm dizer-nos que temos a nossa sexualidade reprimida por uma sociedade conservadora e com os seus valores distorcidos? Vêm dizer-nos que somos tão cobardes e submissos no dia-a-dia que temos que descarregar em quem é, supostamente, mais fraco?

Por favor, não destruam esse mito!

P.S. Agora um bocadinho mais a sério... É assustador haver uma empresa que pague dinheiro a alguém para revelar todos os seus sórdidos segredos... É assustador alguém revelar os seus sórdidos segredos para ganhar meia dúzia de tostões... É assustador alguém acreditar que isso vai dar audiências... É assustador isso ter audiências...
Não quero ser moralista, nem tão pouco defender a censura. Acredito plenamente na liberdade de expressão. No entanto, sinto arrepios só de pensar no conceito do Momento da Verdade. Sinto arrepios quando vejo alguém disposto a tudo para ganhar dinheiro. Senti arrepios quando me disseram que alguém foi à televisão admitir que tinha sexo desprotegido com dezenas de mulheres à frente da mulher que supostamente ama e de quem tem uma filha (Um homem que tem tantos tomates que até se dispõe a dizer isso na televisão não tinha tomates para ter sido honesto com a mulher antes de ter destruído a sua vida? ). Senti arrepios quando vi um homem a admitir que batia na mulher. Porque é que não pegam no dinheiro que dariam a um homem que admite em público que bate na mulher (como que a premiar a sua honestidade/brutalidade) e financiam a luta contra este abominável crime? Não sei se é só de mim mas custa-me muito ver alguém ganhar dinheiro por admitir que bate na mulher. Numa situação normal esse indivíduo deveria ser condenado, não recompensado...
Nunca vi nada tão decadente como isto e acho incrível ver as pessoas a aceitarem tão passiva e pacificamente este programa. Longe de mim pensar que se pudessem organizar protestos ou revoluções, mas contava, pelo menos, que o boicotassem.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cavaleiro em final de demanda

E como faço anos amanhã (dia 26 de Setembro) posso permitir-me a umas lamechices sem me sentir tão culpado e envergonhado como da última vez que coloquei este post on-line. É a minha prenda para todas as pessoas que aqui refiro e que me acompanharam ao longo destes últimos 5 anos na Faculdade...

O texto começava assim:


Pois é, vou de férias. Não é como as férias que tenho tido até agora, fechado em casa a trabalhar. Vou mesmo de férias. As minhas últimas férias como estudante... É por isso que, envolvido nesta melancolia, deixo o meu post mais pessoal, acompanhado de um vídeo, que ilustra, de certo modo e por alguns motivos, a minha passagem pela faculdade. Foi feito quando ainda estava no primeiro ano, no âmbito de um trabalho para a cadeira de Epistemologia. Este vídeo marca então o início de um ciclo que agora está a acabar.

Apesar de parecer, depois deste primeiro parágrafo, que este não é um post humorístico, ou seja fora do espírito que tenho vindo a imprimir neste blog, é capaz de ser o post com mais piada que já escrevi. É uma história real, um episódio inesquecível por ter sido uma das situações em que me senti mais envergonhado na vida.

Passo então a contar a história. Foi-nos pedido que fizéssemos um trabalho sobre Thomas Kuhn e sobre a teoria das revoluções paradigmáticas. Muito basicamente, Kuhn defendia que a ciência evoluia através de revoluções que marcavam a passagem de uns paradigmas para outros, o que faz com que um paradigma actual seja, pela sua inadequação, completamente incompatível com o paradigma actual.

O meu grupo (constituído pela Carmen, pelo Freddy, pela Sara e pela Inês) reuniu-se e teve uma série de ideias com o objectivo de tornar este trabalho o mais criativo possível, já que a Professora nos dava liberdade para isso. Por exemplo, todo o trabalho seria apresentado por uma voz off que seria uma invocação de Kuhn por parte de uma vidente, que o interrogava e o fazia explanar as suas ideias. O Thomas Kuhn seria um fantasma com muito mau feitio e uma grande queda para as graçolas. Mais uma ideia aqui, outra ideia acolá e acabei por sugerir algo extremamente disparatado, absurdo e completamente fora daquilo que deve ser um trabalho do Ensino Superior:

- E que tal um de nós ir vestido de cavaleiro da Idade Média para a Estação de S. Bento? Para provar a ideia de que os paradigmas antigos estão desenquadrados relativamente aos paradigmas actuais... Tipo, hoje em dia ninguém anda vestido de cavaleiro da Idade Média... A não ser que seja maluco...

Esperava com esta ideia, obter algumas gargalhadas acompanhadas de um "És mesmo maluco! Achas que iriamos fazer isso?". No entanto acabei por receber gargalhadas acompanhadas de um "És mesmo maluco! Isso é mesmo boa ideia! Podíamos fazer isso!".

E eu, por orgulho, em vez de dizer: "Estava a gozar! Acham que alguém seria capaz de passar por tanta humilhação?", concordei que era uma boa ideia. E, para corresponder às expectativas dos meus amigos que me achavam maluco, acabei por me oferecer para ir para a Estação de S. Bento vestido de Cavaleiro da Idade Média. Nada de mais!

Fomos comprar toda a indumentária (armas medievais, barbas postiças e assim), até que chegou o grande dia em que eu, completamente sóbrio, decidi ir para a Estação de S. Bento vestido de Cavaleiro Medieval.

Chegámos os quatro à estação e eu e o Freddy fomos até à casa-de-banho preparar as coisas. Entrámos os dois num daqueles cubículos da casa-de-banho em que se paga 50 cêntimos, com o objectivo de conseguir alguma privacidade.

Estava eu quase vestido de Cavaleiro Medieval quando arrombam a porta da casa-de-banho e entra por lá dentro um Segurança com um Rottweiller.

- O que é que vocês estão a fazer aí? - gritou a besta (o Segurança, não o cão, esse limitou-se a rosnar ameaçadoramente).

- Ahhh... estávamos a fazer um trabalho para a escola! - disse o Freddy, numa casa-de-banho da estação à beira de um tipo vestido de cavaleiro medieval, algo que pode ser normal em Amesterdão mas que, no Porto é, no mínimo, esquisito.

- Mas vocês são malucos! - "Sempre a mesma coisa... Vêm para aqui praticar a sodomia e não chamam aqui o chefe... Ai é assim? Então não há sodomia para ninguém!" pensou a besta. - Só pode ficar uma pessoa na casa-de-banho! - acrescentou ele.

- OK!

Obviamente que saiu o Freddy, munido com a câmara para esperar por mim. Não se livrou dos olhares de todos os indíviduos que enchiam os urinóis da casa-de-banho, àquela hora de ponta. Olhares que pareciam dizer: "Olha um gajo que estava na casa-de-banho com outro gajo!".

Passado pouco tempo saí eu. Os indivíduos que tinham olhado ameaçadoramente para o Freddy voltaram a sua atenção para mim: "Estes Cavaleiros Medievais são sempre a mesma coisa... Não passam sem a boa e velha sodomia", pensaram eles.

Depois de sair da casa-de-banho veio o pior: estava o Freddy à minha espera com uma câmara. E o que é que ele filmou? Um tipo vestido de Cavaleiro Andante, com umas longas barbas ruivas, montado no seu cavalinho de pau...

Circulei um pouco pela estação, interagi um pouco com a Inês que estava à minha espera (parte da nossa encenação, visto que o vídeo iria ser narrado depois). E voltei para a casa-de-banho para me voltar a mudar. Os meus colegas ficaram lá fora a regozijarem com o sucesso do trabalho e, claro, a gozarem comigo.

Cheguei à casa-de-banho e reparei que não tinha moedas de 50 cêntimos. Fiquei cerca de 2 minutos ao alto numa casa-de-banho bastante movimentada à espera que se lembrassem de mim. Neste período, que me pareceram cerca de duas horas e 40 minutos, várias pessoas entraram e saíram na casa-de-banho e viram a minha triste figura pensando com os seus botões: "É do álcool ou está um tipo vestido de cavaleiro medieval na casa-de-banho?" ou "Que paradigma tão desenquadrado do paradigma vigente! Thomas Kuhn haveria de achar piada à representação simbólica da pertinência da sua teoria!". Fiquei assim até uma alma caridosa ter ido avisar os meus amigos que eu estava à sua espera na casa-de-banho.

E foi esta a história deste vídeo e deste trabalho!

Uma história marcante do meu percurso académico e, claro, do meu percurso de vida. Passado tanto tempo (cerca de 4 anos) aquilo que me orgulha mais é ter continuado a ser grande amigo do pessoal do meu grupo: a Carmen, o Freddy, a Inês e a Sara.

E, neste momento em que a saga deste cavaleiro está a chegar ao fim há imensas recordações que gostaria de acrescentar a esta. Se esta história marca o início de um percurso que está a chegar ao fim, muito se passou pelo meio... E foi nesse meio que passei grandes momentos da minha vida! Foi nesse meio que conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida! Foi nesse meio que cresci e que me transformei na pessoa que sou hoje!

Não podia esquecer a grande amizade que sinto pelo Tiago e pela Luana (a dupla maravilha) e as nossas tentativas para mudar o Mundo através da AE (juntamente com outras pessoas como o Freddy, a Raquel, a Andreia, a PT, a Catarina, a Tânia (a Pres), a Andreia, a G., o Daniel(o Tesoureiro)... entre muitos outros...). Não mudámos o Mundo mas pelo menos eu saí de lá com a crença de que, com pessoas assim, era possível fazê-lo. O inter rail que fizemos juntos em que conheci grande parte da Europa e que foi uma experiência tão marcante que não morrerei sem voltar a fazer outro (neste caso tenho que te agradecer, Andreia... Pois,.. como se lesses isto...). As casas que partilhámos: tanto a mansão da Areosa (grande demais para nós, para o Xupi e para todos os ácaros, animais invertebrados, baratas crocodilos e cabeças de gado com que a partilhávamos), como a casa de Paranhos (ao pé da do Ministro das Finanças que tantas ideias nos roubou, como aquela do IVA a 20%...). A nossa incapacidade para lidar com situações formais (quando todos estavam de fato e gravata, estávamos nós de mochila e de sapatilhas... como qualquer estudante...). Os fins-de-semana em Moura Morta (em que outro sítio seria eu tão bem recebido?). As aventuras culinárias (no final até aprendeste alguma coisa... eu continuo especialista em idas ao restaurante...). E poderia dizer tanto sobre a nossa amizade e sobre o que passámos juntos que quanto mais disser, mais ficará por dizer, por isso não me alongo, apenas acrescento que valeu a pena ter ido parar à FPCEUP só para vos ter conhecido! Ah! Não me posso esquecer que as únicas vezes que fui ver o Benfica foi com o Tiago... É muito significativo!

Tenho que refeir também a maltini: Daniel, Puss, Freddy, Sara, Inês, Bob, Pinky e Carmen (uma amizade que em boa hora renasceu, tinha que dizer isto!). Nada teria sido o mesmo sem vocês. Poderia enumerar todos os jantares, festas e viagens... Não o vou fazer... É um orgulho ser amigo de pessoas como vocês. Ter a certeza que posso contar com a vossa amizade permite-me olhar para o futuro de uma maneira muito mais optimista! Tudo o que dissesse para além disto soaria banal...

Não está de acordo com o meu feitio abrir-me desta maneira, num espaço tão acessível (aquelas três pessoas que vêm parar aqui acidentalmente através da pesquisa "como cortar as unhas?", "Diogo morgado+salazar" ou "como é possível fazer tanto mal às pessoas?") mas neste momento, apesar de não ter a certeza se vou publicar isto ou não, sinto que é inevitável escrever o que estou a escrever... As recordações surgem em catadupa conheci tanta gente, fiz tanta coisa, agora que está a chegar ao fim gostava de fazer justiça a tudo isso... Sei que é impossível, Mas porque não experimentar? Tudo o que vivi merece esse esforço...

Lembro-me das festas, dos jantares, das conversas até altas horas, dos trabalhos... Lembro-me de um amor falhado, da melancolia de um corta-unhas sem unhas para cortar (que estúpida metáfora), da estupidez de alguém que desperdiça o amor de alguém tão espectacular como eu (perdoem-me a presunção... mas é verdade... um bocadinho de marketing também não faz mal a ninguém...)... Lembro-me de pessoas que ficarão no meu coração para sempre: a PT, o Joshua, a minha Madrinha, o Xupi, a Catarina, a G, a Li, a Tânia, a Raquel, a Lipa... Sei que estou a ser tremendamente injusto com muita gente só pelo simples facto de não os referir. Espero que me perdoem! Não me consigo lembrar de tudo!

Lembro-me da praxe, esse pequeno laboratório de comportamento humano, e de tudo o que aprendi com ela, nomeadamente que o fundamentalismo aliado a uma grande dose de conformismo/carneirismo pode estar na origem de muitos males da humanidade. Incentivou-me de facto a questionar ainda mais e a revoltar-me ainda mais com as injustiças! O lado bom de algo mau...

Lembro-me de uma nostálgica e frenética viagem de finalistas a Lanzarote! Até consegui conhecer o José Saramago! E na sua própria casa (um grande feito de um simples mortal que, por momentos, cheirou o Olimpo. E posso dizer-vos que cheirava a livros!).

Lembro-me de uma Assembleia Geral em que depois de questionarem os nossos princípios e tudo aquilo em que acreditamos assisti ao nascimento de um grande líder na pessoa do Tiago e a um discurso emocionado só ao alcance de uma pessoa de um tão grande humanismo como o Freddy. Como um simples mortal, fiquei calado a assistir ao salvamento da minha honra por estas duas grandes pessoas!

Lembro-me da malta do bar e das ofertas desinteressadas do Sr. Zé que receberia sempre com algum incómodo.... Lembro-me também da Claúdia da AE, do Ricardo, do Prof. Carlos Gonçalves e de todas essas caras que fazem a Faculdade e com quem aprendi tanto...

Foram tantos momentos, tantas caras, tantas recordações... Com este texto consegui quebrar todas as regras que tinha estabelecido para este blog como por exemplo: nada de lamechices e nada de assuntos pessoais... Enfim, senti uma vontade incontrolável de escrever isto, provavelmente arrepender-me-ei, mas está feito! Espero que os meus amigos leiam isto, já que é sobretudo para eles...

E pronto, depois de assegurar que este testemunho fica para a posteridade nesta grande lixeira que é a blogosfera, vou para o Alentejo! Até breve!


video

P. S. O vídeo só por si não tem grande piada... Apesar disso tenho um certo receio que este vídeo se torne um viral... Por um lado trazia-me muitas visitas ao blog, por outro lado podia conseguir tornar-me tão famoso como aquele miúdo que fazia o truque do Star Wars... Ou seja, só tinha a perder... Ao menos estou irreconhecível no vídeo... Porquê esta música? Apeteceu-me...

domingo, 21 de setembro de 2008

A música (?) de João Pedro Pais


Uma música do artista João Pedro Pais foi escolhida para tema da nova novela da TVI. Esperava mais de João Pedro Pais visto que uma pessoa que estudou na Casa Pia, o que o levou a frequentar os círculos mais restritos da alta sociedade, tem o dever de ambicionar algo mais do que fazer música para telenovelas.

Mas temos que fazer pela vida e há que dar um desconto ao João Pedro visto que, neste momento, a sua idade já não o permite frequentar os ambientes privilegiados a que estava habituado nos tempos da Casa Pia.

De qualquer maneira não podia passar indiferente ao regresso deste hino não sabe bem a quê de João Pedro Pais que a TVI resolveu reciclar, intitulado “Mais que uma vez”.
Admiro muito o processo criativo de João Pedro Pais. Partindo do exemplo da música “Mais que uma vez”, este parece consistir basicamente em fazer uma lista de palavras e juntá-las de uma maneira completamente aleatória. É então este Jackson Pollock da música ligeira portuguesa que homenageio aqui, transcrevendo e comentando a letra da sua música “Mais que uma vez”.

Mais que uma vez - João Pedro Pais


Da próxima vez, vou estar atento à tua fisgada
Encruzilhar-me na tua bancada
Ficar num canto e não me mexer.


João Pedro Pais entra em grande nesta música garantindo que vai estar atento à “tua fisgada”. Não se percebe bem a quem é que ele se está a referir. Será que ele se está a referir à nossa fisgada ou à fisgada de outra pessoa qualquer a quem ele dirige a música? Se se está a dirigir a mim não tenho nenhuma fisgada e, muito menos uma bancada onde ele se possa encruzilhar. O que é também um grande conceito, esse de alguém se encruzilhar numa bancada… Quanto a “ficares num canto e não te mexeres”, é o melhor que tens a fazer JP (posso chamar-te JP, não posso?). É a única maneira que tens de te protegeres de alguém que não goste assim tanto que estejas atento à sua fisgada… Há pessoas que não reagem muito bem a esse tipo de ameaças. Experimenta dizer isso a alguém em Nápoles...

Mais uma vez, vou seguir todos os teus caminhos
Fugir fingindo que me vês sorrindo

P'ra te fitar quando eu puder

Confesso que não percebo bem esta estrofe. Depois de nos garantir que estará atento à nossa fisgada, oferece-se para nos perseguir, para fugir enquanto finge que nós o vemos sorrindo e para nos fitar quando puder. É algo demasiado abstracto para conseguir ser percebido… É algo que nem um esquizofrénico paranóide usando um colete de forças diria… Mas dito com uma guitarra na mão e com aquela vozinha de anjo do JP até parece algo romântico… Agora que penso nisso, acho que não parece... Ao menos o colete de forças contextualizaria um pouco esta frase... Dito com uma guitarra na mão parece bem mais maluco...

Quero ser, personagem de banda desenhada
Onde me assumo numa cena errada
E em que todos me vão descobrir

Não sei exactamente que personagem de banda desenhada é que o JP quer ser… Ao que parece é uma personagem que estaria a precisar de sair do armário… O Incrível Hulk? O Tintim? O Lucky Luke? O Batman? Agora que penso nisso talvez seja o Robin, o companheiro do Batman… É o único que me estou a lembrar que poderia ter algo a assumir… Escusado será dizer que não encontro ligação às estrofes anteriores… Parece que no meio daquela maluqueira toda o João Pedro se lembrou que queria ser uma personagem de banda desenhada... Era bem pior se este se lembrasse que seria boa ideia ir passear para o shopping montado num elefante... Ao menos, o querer ser personagem de banda desenhada até pode ter o seu lado positivo, pode ser que ele se lembre de pôr uma capa aos ombros e se atire de um prédio ou que tente parar uma locomotiva com as mãos... Essas coisas que as personagens de banda desenhada costumam fazer...

Quero ficar um pouco mais dentro do teu casulo
Faço de conta, que sou teu e tu és meu assunto
Onde me entrego e tu te dás a conhecer

Depois de se encruzilhar na nossa bancada, ou na bancada de outra pessoa qualquer a quem João Pedro Pais se dirige, pessoa essa que, neste momento, deve estar bastante assustada e a quem eu aconselharia a pedir uma ordem de restrição ao tribunal, João Pedro Pais diz quer “ficar um pouco mais dentro do teu casulo”. Isto leva-nos a pensar que, se calhar, João Pedro Pais está a dirigir-se a um bicho da seda… É isso! Agora tudo faz mais sentido… Podemos dizer o que quisermos a um bicho da seda que a única coisa que ele vai fazer é construir o seu casulo, comer folhas de amoreira, fazer cocó, transformar-se numa borboleta, pôr ovos e morrer… Acho que a única maneira de esta música de João Pedro Pais fazer sentido é dirigida a um bicho da seda… É que este está-se a cagar para aquilo que o João Pedro Pais está a cantar, assim como o próprio João Pedro Pais… Acho que é uma teoria bastante plausível…

Que ninguém vá, onde vou
Nunca estás, onde estou
Que ninguém fale, de quem falou

Nunca digas quem eu sou

Este é o refrão mais espectacular da música pop portuguesa desde o “Soltem os prisioneiros” dos Delfins. Se para o refrão dos Delfins a nossa reacção era:
- Mas quê? Os pedófilos também, Miguel Ângelo? E os traficantes de droga? Então e queres que solte também o serial killer de Santa Comba Dão? OK, é na boa, todos menos o Vale e Azevedo…
Para o refrão desta música de João Pedro Pais a nossa reacção é:
- What the fuck?
João Pedro Pais começa por ordenar que ninguém vá para onde ele vai, deixando um certo secretismo a pairar no ar. A que sítios é que ele se estará a referir? Provavelmente a um sítio especial, onde ele goste de estar sozinho, para reflectir e pensar na vida e em bichos da seda… Ou então a um sítio especial da sua infância… Talvez a casa de Elvas… Não sabemos… A única coisa que sabemos é que ele não quer partilhar esse sítio com ninguém… Novamente em jeito de ordem, João Pedro Pais exige “que ninguém fale de quem falou”. Eu espero que obedeçam mesmo à ordem dele, já que se há mensagem que esta música passa é que o seu autor é menino para nos mandar uma machadada na cabeça caso não lhe obedeçamos… No entanto, não percebo a quem ele se refere, logo não há maneira nenhuma de evitar falar de quem falou… Na dúvida é melhor não falar em ninguém à beira de João Pedro Pais… Aquela ameaça final “nunca digas quem eu sou” podia muito bem ser rematada com algo do género:
- Nunca digas quem eu sou… senão eu enfio-te uma granada na boca…
Ou então:
- Nunca digas quem eu sou… ou eu amarro-te a uma cama de espinhos e obrigo-te a ouvir as minhas músicas durante o resto da tua vida…
Este JP consegue mesmo convencer-nos a obedecê-lo. Depois desta ameaça jamais direi quem ele é… jamais direi que o João Pedro Pais é um músico medíocre, um praticante de luta greco-romana razoável e, possivelmente, um esquizofrénico paranóide… Ooops!

Da próxima vez vou querer toda a tua atenção
Vou esperar que me estendas a mão
E que me deixes cair a seguir.

Nesta quadra JP descreve-nos aquilo que para ele é obter a atenção de uma pessoa. Para João Pedro Pais, o máximo que ele pode esperar de alguém que lhe dedica toda a sua atenção é que ela lhe estenda a mão e o deixe cair a seguir… Terá sido o que o Sr. Embaixador fez quando o, outrora pequeno, João Pedro fez 14 anos?

Mais que uma vez puseste à prova o teu sexto sentido
Depois dás o dito por não dito
Como eu gostava de te compreender...

Que raio de pessoa é esta a quem João Pedro Pais se dirige? Uma pessoa que por mais do que uma vez põe à prova o seu sexto sentido e, como se não bastasse, ainda dá o dito por não dito? Shame on you! Isso não se faz… Das duas uma ou pomos à prova o sexto sentido ou assumimos o que dizemos, mas fazer isto ao rapaz? Depois não admira que ele fique assim… Será que por andar a ouvir João Pedro Pais estou a ficar como ele? Em termos de coerência, este último parágrafo quase que pode equiparar-se a algo que ele diria.

Quero ser, a solução do teu problema
Participando nesse mesmo esquema
Que só tu sabes entender

Eu aqui a dizer mal do JP mas o rapaz afinar só quer resolver o problema da pessoa a quem dirige a música… Se, como tenho vindo a assumir, a pessoa a quem ele dirige a música somos nós ouvintes, eu aproveito para dizer ao João Pedro Pais que grande parte dos meus problemas estariam resolvidos se ganhasse o Euromilhões ou se ele deixasse de cantar… Se queres mesmo participar neste esquema, faz isso, que o meu problema fica resolvido… Atenção, a minha vida não é tão desinteressante que o meu maior problema seja a música do João Pedro Pais. A questão é que eu ponho-me a pensar em que é que o ele poderia contribuir para resolver os meus problemas e, de facto, a única coisa que me vem à cabeça é ele deixar de cantar… Mas não faço assim tanta questão… Só estava a ser bem educado perante tanta solicitude da parte dele em resolver os meus problemas…

Queria ter, só um pouco desse teu talento
Tiro as vogais e ponho os acentos
Estou preparado p'ro que der e vier

João Pedro, não sei a que talento te referes... Se é comigo que estás a falar não me lembro assim de grandes talentos… Eu sou muito forte a beber finos de penalty, a imitar chimpanzés e, quando era miúdo, jogava relativamente bem ao berlinde… Se te estás a referir a alguém mesmo talentoso acho que é a coisa mais inteligente que disseste nesta música. De facto, reconheceres a tua falta de talento demonstra uma grande humildade e honestidade. Reconhecer é o mais difícil, só te falta mesmo dar o passo seguinte: deixar a música. Estou contigo nessa luta! Desejo-te toda a força para conseguires concluir esse desafio profissional com sucesso!
Gostei bastante do verso que ele meteu ali no meio para rimar com talento: “tiro as vogais e ponho os acentos”. Fantástico! É a única coisa que posso dizer! Não consigo imaginar verso mais estúpido acabado em “entos” ou "ento"… Posso dar alguns exemplos:
“Fecho os olhos e conto até quinhentos”
“Fico à espera de termos muitos rebentos” “Corto o cabelo como o Paulo Bento”
“Encho um balão que depois rebento”
De qualquer maneira, nada do que eu possa inventar chega aos calcanhares de “tiro as vogais e ponho os acentos”…

sábado, 20 de setembro de 2008

Saddam, Ahmadinejad, Kim Jong Ill e... Zapatero

A relutância de McCain em adimitir um possível encontro com Zapatero fez-me pensar na possibilidade de a nossa querida e bela Península Ibérica pode vir a ser alvo da atenção mundial como um local onde se passeia livremente pelos corredores do poder, um maníaco de um calibre de um Kim Jong Ill ou de um Ahmadinejad ou então que McCain não faz a mínima ideia de quem é Zapatero.

Obviamente que me inclino mais para a segunda hipótese, no entanto não deixa de ser curioso este avôzinho continuar a acusar Obama de inexperiência, incapacidade para lidar com crises e ignorância ao nível de política internacional...

Gostava que perguntassem a McCain se ele seria capaz de se encontrar com José Sócrates...

PS: Aproveito para dizer que isto do blog estar branco não é engano. Nunca tinha lido os meus posts no blog até o ter experimentado ontem e, de facto, aquele fundo preto e aquela formatação de texto era completamente atrofiante. Sei que vou perder aqueles visitantes que aqui vinham por causa do espectacular fundo preto, mas conto compensar isso com um aumento do número de visitantes que realmente vêm ler o que escrevo.